terça-feira , 2 junho 2026
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A piada que vira crime não tem graça

A violência contra a mulher começa quando o “não” passa a ser entendido como afronta ou provocação. Quando a frustração vira raiva. Quando um menino aprende que, se a vontade dele não for atendida, alguém precisa pagar por isso. Precisamos mudar a forma como enxergamos as mulheres. Todos nós. Inclusive nós, mulheres.

Surgiu uma nova trend. Se você não é dos mais antenados como eu, “trend” é uma tendência que ganha visibilidade rapidamente nas redes sociais. E, ao que parece, a moda agora é ver meninos fazendo vídeos em que treinam como agir caso uma menina diga “não” a um pedido de namoro ou casamento.

Todos os vídeos seguem praticamente o mesmo roteiro: o menino aparece ajoelhado, em uma cena romântica, com um anel na mão. A menina diz não. Então ele começa a simular golpes, chutes, socos e até facadas. A violência vira brincadeira. Muitos adolescentes replicam os vídeos. Muita gente ri. E, ao mesmo tempo, o mundo se diz perplexo com as notícias de violência contra a mulher.

Há pouco tempo vimos um estupro coletivo cometido contra uma adolescente de 17 anos por meninos tão jovens quanto ela. Quando li a notícia, além da barbárie do crime, o que mais me impressionou foi a idade dos criminosos. Ninguém nasce ruim. Aqueles jovens, todos de classe média, têm menos de duas décadas de vida. O que viveram para se transformarem em monstros que “não se arrependem de nada”?

A juíza do caso, Vanessa Cavalieri, afirmou em entrevista que os adolescentes que têm cometido crimes com maior grau de violência e atrocidade são justamente aqueles que estão no topo da pirâmide social. Enquanto jovens pobres, moradores de comunidades, costumam se envolver em crimes como roubo, furto ou tráfico — muitas vezes em busca de dinheiro rápido —, atos mais violentos, como estupro, tortura de animais e homicídios, aparecem com frequência entre adolescentes que cresceram em famílias estruturadas, tiveram acesso a boas escolas e contam com pais presentes e, na maioria das vezes, com nível superior.

Psicólogos e sociólogos apontam que parte desse fenômeno está ligada ao acesso cada vez maior a grupos de ódio que crescem vertiginosamente na internet. Um dos mais conhecidos é o chamado Red Pill, que promove ideologias machistas e misóginas e se apresenta como parte da chamada “machosfera”.

A expressão nasceu como referência ao filme Matrix. No filme, tomar a “pílula vermelha” representa a escolha de despertar para a realidade, por vezes dura e desconfortável. Na internet, porém, o termo virou um código usado por grupos que dizem que os homens precisam “acordar” para a verdadeira natureza das mulheres.

O movimento não começa com o ódio. Pelo contrário: costuma surgir com aparência de autoajuda, oferecendo dicas de relacionamento ou ensinando como ser um “homem de verdade”. Fala-se de confiança, dinheiro e comportamento. À primeira vista, parece inofensivo. Mas é apenas a porta de entrada.

Aos poucos, a mensagem muda. Surge então uma narrativa em que as mulheres passam a ser retratadas como interesseiras, manipuladoras, ameaças que precisam ser controladas, testadas, punidas ou colocadas “em seu lugar”. É a misoginia sendo ensinada em forma de memes e trends — justamente os formatos mais fáceis de atrair jovens e adolescentes.

Essa cultura normaliza o desrespeito e transforma a rejeição em ressentimento. Vende controle como se fosse masculinidade. E assim o jovem aprende a tratar o “não” não como um limite, mas como um desafio.
O estupro e o feminicídio são apenas o topo da pirâmide. A base é construída pouco a pouco: em cada risada diante de uma piada machista, em cada comentário que desumaniza uma mulher e em cada silêncio cúmplice.

A violência contra a mulher começa quando o “não” passa a ser entendido como afronta ou provocação. Quando a frustração vira raiva. Quando um menino aprende que, se a vontade dele não for atendida, alguém precisa pagar por isso.

Precisamos mudar a forma como enxergamos as mulheres. Todos nós. Inclusive nós, mulheres. Segundo o relato da mãe da vítima do estupro coletivo em Copacabana, quando contou o que havia acontecido, a menina só sabia pedir desculpas. Na camisa de um dos estupradores estava escrito “regret nothing” — “não se arrependa de nada”. Ela, vítima, se culpava. Ele, criminoso, não demonstrava arrependimento.

Antes de estuprar a menina, dentro do elevador, os meninos ainda faziam chacota: “a mãe de alguém vai chorar hoje, porque a nossa…”. Enquanto continuarmos criando meninos para serem “machos alfa” em vez de seres humanos capazes de empatia, continuaremos assistindo às mesmas tragédias e fingindo surpresa. A verdade é simples e incômoda: a violência contra a mulher não começa no crime. Ela começa muito antes, começa com algo que a sociedade resolveu chamar de brincadeira – ou trend, agora.

Como bem explicou a juíza, a violência não está na pobreza. Está na falta de conexão humana, de vínculo afetivo.

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