segunda-feira , 1 junho 2026
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O vício virou negócio e o país segue ‘‘dando likes’’

Existe uma cultura de idolatria digital que transforma influenciadores em figuras quase inquestionáveis. Essa devoção cega fortalece um mercado que lucra justamente explorando sonhos, vulnerabilidades e ilusões. Mas o verdadeiro debate não é sobre Luana Piovani ou Virgínia Fonseca. A pergunta que deve permanecer não é quem venceu essa briga na internet, mas quantas famílias perdem tudo enquanto nós aplaudimos quem lucra com a ilusão

Luana Piovani se envolveu em mais uma polêmica. Dessa vez, o alvo foi a influenciadora digital, Virgínia Fonseca. No Instagram, Luana republicou um vídeo da auditora Juliana Prates, funcionária do Tribunal de Contas da Bahia, relatando a dor pela morte do irmão, Otacílio Prates, que sofreu com o vício em apostas virtuais. Na publicação, Piovani fez menção à influenciadora: “Virginia, a maldição vai colar em você, resvalará nos seus filhos, dinheiro de sangue, endemoniado”, escreveu.
Em seguida, Virgínia Fonseca apareceu na mesma rede social chorando, indignada com a menção aos filhos, Maria Alice, 4 anos, Maria Flor, 3, e José Leonardo, 1.
No vídeo, compartilhado por Luana Piovani, Juliana conta que o irmão chegou a receber diagnóstico médico, passou por internação e ficou afastado do trabalho por cerca de quatro meses. Na tentativa de retomar a rotina, acabou se envolvendo com apostas online, o que intensificou o endividamento. Na publicação, ela falou sobre o crescimento do mercado de apostas online, as chamadas “bets”, no país. “O que antes era proibido virou negócio, profissão, “conteúdo”, o vício virou mercado e o Estado aplaudiu”, escreveu.
Virgínia foi a influencer que mais impulsionou as divulgações desse tipo de jogos no país, tanto, que chegou a ser chamada para uma CPI sobre o tema. Ela ganhou milhões com essas publicidades enquanto centenas de milhares de pessoas perderam tudo, inclusive a vida.
A discussão entre Luana Piovani e Virgínia Fonseca ultrapassa o universo das celebridades e escancara dois problemas sociais gravíssimos: o poder cada vez maior que influenciadores digitais exercem sobre milhões de pessoas e a necessária e urgente regulamentação sobre a publicidade dessas plataformas de apostas online.
Longe de querer defender Luana Piovani – para mim, sempre muitos tons acima do ideal – eu preciso reconhecer que seu posicionamento nasce de uma indignação legítima diante de um cenário alarmante. Enquanto famílias convivem com o vício, o endividamento e o sofrimento causados pelas bets, influenciadores seguem lucrando milhões para convencer seguidores de que apostar é diversão, oportunidade ou estilo de vida.
O crescimento acelerado das chamadas “bets” não é apenas um fenômeno econômico ou tecnológico. Trata-se, sobretudo, de uma mudança cultural, impulsionada pela naturalização da aposta como entretenimento cotidiano e, em muitos casos, como promessa de solução financeira.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio, em pouco mais de três anos, os gastos mensais com apostas saltaram para além de R$ 30 bilhões, em paralelo ao aumento dos casos de inadimplência. Quando a aposta deixa de ocupar um espaço marginal e passa a competir com despesas essenciais, o que está em jogo não é apenas o orçamento, mas a própria percepção de risco. Os dados sugerem uma inversão de prioridades: antes de quitar compromissos básicos, parte da renda é direcionada às plataformas de aposta.
Quando influenciadores vendem as bets como um caminho rápido para dinheiro fácil, o problema fica ainda mais grave. Isso porque hoje eles ocupam um espaço de referência emocional, social e comportamental. Milhões de pessoas acompanham suas rotinas, compram os produtos que indicam, reproduzem suas falas e, muitas vezes, enxergam nesses famosos um modelo de sucesso. Existe uma relação de idolatria construída diariamente pelas redes sociais, baseada em proximidade e confiança. Quando um influenciador divulga uma plataforma de apostas, ele não está apenas fazendo propaganda: está validando aquele comportamento para um público vulnerável.
Quem movimenta multidões nas redes sociais não pode agir como se suas escolhas comerciais fossem neutras. Cada publicidade tem impacto.
Existe uma cultura de idolatria digital que transforma influenciadores em figuras quase inquestionáveis. Essa devoção cega fortalece um mercado que lucra justamente explorando sonhos, vulnerabilidades e ilusões.
Mas o verdadeiro debate não é sobre Luana Piovani ou Virgínia Fonseca. A pergunta que deve permanecer não é quem venceu essa briga na internet, mas quantas famílias perderam tudo enquanto nós aplaudíamos quem lucrava com a ilusão.

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