segunda-feira , 1 junho 2026
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Quebrar altares para construir um futuro melhor

“A gente precisa parar de tratar política como religião. Se a gente realmente quer um futuro melhor, precisa começar derrubando esses altares onde colocamos políticos. O país não precisa de ídolos, mas de cidadãos atentos, críticos e conscientes do seu papel. Menos culto à personalidade, mais compromisso com o coletivo.’’

Donald Trump chamou o Papa de fraco e desastroso, se “fantasiou” de Jesus Cristo, disse que curava pessoas e as fazia melhores. Há algum tempo, vi na internet uma frase que dizia que as pessoas precisavam parar de dizer que “pior do que está não fica” porque o universo entendia como um desafio e se superava. As notícias das últimas semanas nos fizeram perceber que não há limite, também, para onde pode nos levar a idolatria política.
Os episódios recentes envolvendo Donald Trump e o Papa Leão XIV mostram bem até onde pode chegar a mistura de poder, ego e idolatria. Depois do fracasso nas negociações com o Irã, Donald Trump chamou o Papa de fraco e disse que ele é péssimo em política externa. Criticou suas posições sobre guerra, segurança e armas nucleares: “Não quero um Papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela”, disse o presidente norte americano ao afirmar que, sem ele na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano, como se a escolha do Papa fosse um assunto presidencial.
Em seguida, Trump publicou em sua rede social uma imagem gerada por inteligência artificial que o retratava com túnicas vermelhas e brancas, assemelhando-se a uma figura messiânica, curando enfermos. Donald Trump apagou a publicação, disse que a intenção era se retratar como um médico que cura pessoas, porque ele fazia pessoas melhores. Mas a imagem já havia se espalhado e o simbolismo já havia cumprido seu papel de reforçar uma narrativa de grandeza e onipotência.
A resposta veio no mesmo nível: um vídeo, também feito com IA, mostrando Jesus Cristo (o original) agredindo Trump e jogando-o no inferno. Parece até roteiro de filme ruim, mas é a realidade. O debate político, que deveria ser pautado por ideias, propostas e responsabilidade, foi reduzido a uma disputa simbólica quase caricata — uma guerra de imagens, egos e crenças.
O problema é que isso tudo não é só exagero isolado. É reflexo de algo maior: a política deixou de ser apenas debate de ideias e passou a funcionar quase como uma religião. Tem líder que é tratado como salvador e tem gente que defende esse líder como se fosse questão de fé. E aí mora o perigo.
Quando um político vira ídolo, ele deixa de ser questionado. Os erros são ignorados, as falhas viram detalhe e qualquer crítica é vista como ataque. Não é mais sobre o que ele faz, mas sobre quem ele representa para quem acredita – ou tem fé – nele.
Democracia não combina com devoção. Ela exige vigilância constante, senso crítico e disposição para questionar — inclusive aqueles com quem concordamos. Um líder que não tolera críticas não quer servir; quer ser seguido. E um povo que não questiona abre mão do seu papel mais essencial.
Não tem problema admirar alguém. O problema começa quando a admiração vira devoção. Porque, nesse ponto, a gente para de pensar — e passa só a acreditar. O compromisso do cidadão não deve ser com nomes, partidos ou figuras carismáticas, mas com princípios: ética, transparência e interesse coletivo. No fim das contas, o compromisso deveria ser com ideias e valores, não com pessoas. Porque líderes passam. Mas as consequências das escolhas deles ficam.
Enquanto continuarmos tratando líderes como ídolos, estaremos condenados a aceitar o inaceitável — e a descobrir, da pior forma, que sempre há espaço para piorar.
A gente precisa parar de tratar política como religião. Se a gente realmente quer um futuro melhor, precisa começar derrubando esses altares que colocamos na política. O país não precisa de ídolos, mas de cidadãos atentos, críticos e conscientes do seu papel.
Ano de eleição é o momento de trocar paixão por responsabilidade, impulso por reflexão. É hora de escolher quem está mais preparado, quem tem propostas reais, quem aceita ser cobrado… Não o que eu mais gosto.
Construir um país melhor não depende de um salvador, depende de uma base sólida. E essa base se constrói com participação, consciência e senso crítico. Menos culto à personalidade, mais compromisso com o coletivo.
Se a gente conseguir quebrar esses altares e fortalecer os pilares da cidadania, aí sim existe chance de mudar o rumo da história.

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