01 de maio, Dia do Trabalhador, e estamos todos cansados. Pesquisas recentes sobre burnout, síndrome que tem como uma das dimensões o sentimento de exaustão, apontam um aumento alarmante de casos. No Brasil, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho estima que 40% das pessoas economicamente ativas sofram de burnout. E os afastamentos pela síndrome aumentaram quase 1.000% em uma década, segundo dados do INSS.
Parece que a nossa era é a da exaustão, uma era caracterizada acima de tudo pelo cansaço, pela desilusão e pelo burnout. E isso não vem só das horas trabalhadas, mas nasce do ritmo frenético que se impôs como normal. A pressa virou regra. Tudo é urgente, tudo é para ontem, tudo exige mais. Mais produtividade, mais disponibilidade, mais entrega. Como se nunca fosse suficiente. Como se o valor de alguém estivesse diretamente ligado à sua capacidade de se esgotar, se dedicar para além do razoável.
E é em meio a essa comprovada “sociedade do cansaço”, que temos debatido a urgência do fim da escala 6X1. Nesta quarta-feira, a comissão especial da Câmara de Deputados vai analisar as propostas de emenda à Constituição que preveem a redução da jornada de trabalho. De um lado, quem entende a difícil rotina de quem acorda cedo e dorme tarde demais todos os dias para garantir o básico. De outro, quem acha que a redução da jornada pode causar prejuízos, desacelerar o desenvolvimento e provocar mais desemprego. No meio de tudo isso, a polarização constante, os embates intermináveis, as discussões que raramente constroem algo – e tudo isso também cansa.
Pesquisas publicadas em dezembro mostraram que, embora 72% da população seja a favor do fim da escala 6×1, entre os deputados, apenas 42% são favoráveis e 45% são contra — os outros 13% não opinaram ou não responderam.
Economistas e empresários têm se posicionado contrários ao fim da escala 6×1, argumentando que será um “tiro no pé” da economia. Defensores da redução da jornada de trabalho rebatem afirmando que escravocratas também alegariam que o país não teria estrutura para acabar com a escravidão, que o Brasil quebraria com a libertação dos negros. Movimentos no mesmo sentido também aconteceram (em maior ou menor grau) quando se discutia o 13º salário ou férias remuneradas. Após um período de adaptação seguimos por aqui, evoluindo de maneira mais justa e humana.
Países desenvolvidos têm demonstrado que é possível seguir crescendo sem deixar trabalhadores esgotados, ou talvez, tenham demonstrado que só é possível crescer se os trabalhadores não estiveram esgotados. A jornada de trabalho padrão na França é de 35 horas semanais. Nos EUA, é de 40 horas. Países como Holanda, Dinamarca, Islândia, Bélgica e Emirados Árabes Unidos reduziram a jornada de trabalho semanal para aumentar a produtividade e o equilíbrio de vida. Modelos focados na semana de 4 dias semanais se destacam na Europa e têm sido testados em nações como Chile e Colômbia.
A jornada 6×1 é um símbolo claro do esgotamento atual e, muitas vezes, da baixa produtividade. Trabalhar seis dias para descansar um não é apenas uma conta injusta — é um modelo que parece ignorar que as pessoas têm vida além do trabalho.
O resultado é uma sociedade exausta. O Dia do Trabalhador precisa ser menos sobre celebração e mais sobre reflexão. Sobre que tipo de trabalho queremos. Sobre quanto da nossa vida estamos dispostos a entregar. E, principalmente, sobre como reconstruir um equilíbrio que parece cada vez mais distante.
Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, certa vez falou que a vida não podia ser só trabalhar. “Temos que deixar um bom capítulo para a loucura que há em cada um de nós. Só é livre quando se gasta tempo de vida em coisas que lhe motivem, que goste. Para uns pode ser futebol, para outros pescar, outros investigar uma molécula, outro arte, que seja… Somos diferentes. E ter uma causa, uma paixão, leva tempo.”
Em tempos de burnout, rotinas exaustivas e um mercado que valoriza a produtividade acima de tudo, a mensagem de Mujica soa atual e urgente. Porque trabalhar é necessário. Mas viver também é. E, no momento, parece que estamos esquecendo disso
