segunda-feira , 1 junho 2026
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Quando o privilégio entra em pauta, a polarização some

Quem votou a favor? Praticamente todo mundo. Esquerda, direita, centrão. Foram 503 dos 513 deputados votando “sim”. A deputada Adriana Ventura, do Partido Novo, chegou a gritar da tribuna: “Isso é vergonhoso!”. Não adiantou. Ninguém a ouviu. A vergonha já acabou em Brasília (...) E você aí, cancelando a Havan, cortando Havaianas, tomando raio na cabeça…

Enquanto a gente discutia quem sairia do BBB 26 nesta terça-feira — e Tadeu Schmidt fazia um discurso que nos levou a acreditar que seria Ana Paula — o Congresso Nacional aprovava mais um projeto absurdo.
No primeiro dia de votações após a retomada dos trabalhos legislativos, Câmara dos Deputados e Senado aprovaram um projeto que reestrutura a carreira de seus próprios servidores e permite reajustes capazes de ultrapassar o teto constitucional.
As medidas criam uma chamada “licença compensatória”, que concede a trabalhadores em funções comissionadas nas duas Casas uma folga a cada três dias trabalhados — com limite de dez por mês — podendo ainda ser convertida em pagamento em dinheiro, caso o servidor opte por não utilizar a folga. Na prática, a nova gratificação funciona como se o servidor tivesse um “mês de 40 dias”, gerando um adicional artificial na remuneração. Por ser classificada como verba “indenizatória”, fica livre de imposto de renda.
Os textos preveem ainda gratificações por desempenho que variam de 40% a 100% sobre o salário-base dos trabalhadores da Câmara e do Senado. O resultado é simples: salários que dobram. Haverá servidores com contracheques acima de R$ 70 mil — quando o teto constitucional é de R$ 46 mil.
O trâmite foi o que já virou rotina: projeto pautado do nada, votação em regime de urgência, aprovação simbólica — ou seja, sem voto nominal, sem transparência, sem escrúpulos e sem vergonha.
Quem votou a favor? Praticamente todo mundo. Esquerda, direita, centrão. Foram 503 dos 513 deputados votando “sim”. A deputada Adriana Ventura, do Partido Novo, chegou a gritar da tribuna: “Isso é vergonhoso!”. Não adiantou. Ninguém a ouviu. A vergonha já acabou em Brasília e, quando o assunto é privilégio, não existe polarização. PT e PL juntos em uma grande “união nacional”.Enquanto a população segue presa à cansada briga entre Lula e Bolsonaro, escolhendo a cor da própria torcida e adotando político de estimação, o Congresso deixa claro que a raiz dos nossos problemas não está apenas no Executivo.
O “toma-lá-dá-cá” se institucionalizou de tal forma que cargos, verbas e emendas — muitas vezes secretas — tornaram-se moeda corrente para garantir apoio ao governo da vez, independentemente de ideologia. A governabilidade passa pela barganha, não pelo convencimento democrático. PT ou PL. Esquerda ou direita. Não importa. Qualquer governo estará de mãos atadas se o Congresso estiver mal-intencionado.Casos de corrupção, rachadinhas, falsos pronunciamentos, manobras regimentais e blindagem de aliados tornaram-se rotina no Legislativo. Leis são aprovadas a toque de caixa, sem debate público ou audiências consistentes. O Parlamento, que deveria ser a casa da transparência, é cada vez mais percebido como espaço de impunidade. PEC da Blindagem, da Bandidagem, da Dosimetria, da Anistia — nenhuma delas nasceu do interesse público.
O Congresso foi capturado por interesses particulares, fisiológicos e corporativos, completamente desconectados das necessidades reais da população. Parlamentares passaram a se moldar à lógica das redes sociais: viraram influencers, priorizando falas agressivas, cortes virais e “lacradas”, em detrimento do trabalho legislativo substantivo. A política virou espetáculo; o debate público, meme.
Além disso, o Parlamento sofre forte influência de lobbies diversos: agronegócio, igrejas, grandes empresas, corporações armadas. Comissões são loteadas, pautas são negociadas, interesses públicos são trocados por vantagens privadas. A agenda do país cede lugar à agenda de poucos. E você aí, cancelando a Havan, cortando Havaianas, caminhando quilômetros, tomando raio na cabeça…
Nesta terça-feira, o Congresso aprovou um supersalário de até R$ 77 mil em apenas duas horas. Um impacto de R$ 790 milhões. Para eles mesmos. Isso é mais dinheiro do que 95% dos municípios brasileiros têm para gastar durante um ano inteiro. Inventaram um jeito de receber 13 salários por ano. Criaram um mês de 40 dias. E chamaram isso de verba indenizatória. 503 deputados votaram para roubar você. E você, muito provavelmente, vai reeleger muitos deles.
Ou a gente para de tratar política como torcida de futebol, ou vamos continuar usando nosso voto para abrir os cofres públicos aos bandidos.

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