Era madrugada. Quatro adolescentes atraíram um cachorro dócil que vivia nas ruas, cuidado pela população da redondeza. Orelha era um cachorro comunitário da Praia Brava, em Florianópolis. Todo mundo o conhecia. Ele confiava em todos que viviam ali. Quando o cachorro se aproximou, os jovens começaram a espanca-lo, sem dó, a pauladas. Bateram tanto, que seu cérebro ficou exposto. Ele tremia caído no chão, ensanguentado, com seu corpo perfurado por pregos. Durante a manhã, os moradores tentaram socorre-lo, o levaram ao veterinário, mas nada mais poderia ser feito a não ser a eutanásia para pôr fim ao sofrimento.
Se se encerrasse aí, a notícia por si só já seria absurdamente chocante. Mas o desenrolar da história causa ainda mais asco. Tudo nesse caso é um escândalo. É um crime atrás do outro. O porteiro que filmou as agressões foi ameaçado pelos familiares do jovem. A juíza que seria responsável pelo caso se declarou parcial por ter relações próximas às famílias dos adolescentes. A outra magistrada que a substituiu proibiu a quebra de sigilo telefônico. Encontraram drogas na casa de um dos garotos, mas o caso foi ignorado porque a quantidade era “pequena”, apenas para consumo. Familiares estão sendo denunciados por coação a testemunhas. Não bastava terem criado monstros, agora, usam seu poderio econômico e social para amedrontar quem fala o que sabe, usando o sistema que deveria puni-los para esmagar quem ousa denunciar. A justiça nesse país está longe de ser cega. Ela vê, o tempo inteiro, a cor de pele, o saldo bancário e o sobrenome. Já pensou se a droga tivesse sido encontrada na casa de um jovem preto da favela?
E, como se todos os absurdos já não fossem suficientes, dois dos jovens que espancaram o cachorro foram para a Disney. Isso mesmo: ao invés de serem repreendidos e punidos duramente, os meninos foram passear porque, segundo a família, a viagem já estava pré-programada.
Sim, o Brasil se indignou com a morte do Orelha, mas o que realmente deveria nos tirar o sono é o que estamos fazendo com os nossos jovens. Precisamos olhar para além do crime e enxergar o vazio emocional que ele revela. Os quatro adolescentes que torturaram até a morte um cachorro poderia ser os nossos filhos ou colegas dos nossos filhos. Garotos que você olha e não vê nada de errado porque são meninos que têm tudo. Tudo, menos limite.
A falta de limites não é liberdade, é abandono. Quando um jovem acha que não tem ninguém olhando por ele, ele acredita que pode fazer qualquer coisa que ninguém não vai nem notar. Quando não ensinamos uma criança a respeitar um animal, estamos falhando em ensiná-la a respeitar um ser humano. Esses jovens não brotaram do nada. Eles são frutos de uma cultura que evita o ‘não’, que transforma a dor do outro em entretenimento e que se omite diante da formação do caráter. Pais omissos estão relativizando o erro ou tentando justificar ou defender atitudes indefensáveis, contribuindo para a normalização daquilo que jamais deveria ser aceito. A violência começa no silêncio da omissão. Ela não surge de repente. Se constrói no descuido, na ausência, no ódio banalizado, na tolerância ao erro.
Casos como esses nos deixam – ou deveriam deixar – um importante alerta. O que aconteceu com o Orelho expôs a ausência de limites morais e a naturalização da maldade. Porque quando a dor do doutra vira diversão, algo essencial está perdido.
Que tipo de jovem estamos formando? Nossos filhos estão aprendendo a conviver em sociedade ou estão entendendo que o mundo gira em torno dos próprios desejos, custe o que custar? A educação é o único antídoto contra a barbárie. O futuro do mundo está dentro da nossa casa, na forma como ensinamos nossos filhos a tratar quem não pode se defender.
O que leva quatro adolescentes da elite catarinense a bater em um cachorro até a morte? Quem faz isso com animal, também bate em mulher no elevador, dopa jovem na balada, atropela trabalhador a 200km/h em seu carro esportivo, atira em gari. Os jovens que fazem esse tipo de coisa hoje e passam impunes, amanhã são os mesmos que ateiam fogo em indígena que dormia em pontos de ônibus. Em 1997, Galdino Pataxó faleceu com 95% do corpo queimado. Os jovens disseram que era uma “brincadeira”. Quase nada aconteceu a eles. Certamente nada acontecerá aos quatro jovens. Mas a gente não pode perder a capacidade de se indignar. Se não houver correção pela justiça, que a gente consiga corrigir os nossos filhos para que eles não repitam atrocidades com essa.
Pedir justiça pelo Orelha é pedir proteção por todos nós.
