segunda-feira , 1 junho 2026
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Adolescentes que tinham tudo, menos limites

Quem faz isso com animal, também bate em mulher no elevador, dopa jovem na balada, atropela trabalhador a 200km/h em seu carro esportivo, atira em gari. Os jovens que fazem esse tipo de coisa hoje e passam impunes, amanhã são os mesmos que ateiam fogo em indígena que dormia em pontos de ônibus por brincadeira

Era madrugada. Quatro adolescentes atraíram um cachorro dócil que vivia nas ruas, cuidado pela população da redondeza. Orelha era um cachorro comunitário da Praia Brava, em Florianópolis. Todo mundo o conhecia. Ele confiava em todos que viviam ali. Quando o cachorro se aproximou, os jovens começaram a espanca-lo, sem dó, a pauladas. Bateram tanto, que seu cérebro ficou exposto. Ele tremia caído no chão, ensanguentado, com seu corpo perfurado por pregos. Durante a manhã, os moradores tentaram socorre-lo, o levaram ao veterinário, mas nada mais poderia ser feito a não ser a eutanásia para pôr fim ao sofrimento.
Se se encerrasse aí, a notícia por si só já seria absurdamente chocante. Mas o desenrolar da história causa ainda mais asco. Tudo nesse caso é um escândalo. É um crime atrás do outro. O porteiro que filmou as agressões foi ameaçado pelos familiares do jovem. A juíza que seria responsável pelo caso se declarou parcial por ter relações próximas às famílias dos adolescentes. A outra magistrada que a substituiu proibiu a quebra de sigilo telefônico. Encontraram drogas na casa de um dos garotos, mas o caso foi ignorado porque a quantidade era “pequena”, apenas para consumo. Familiares estão sendo denunciados por coação a testemunhas. Não bastava terem criado monstros, agora, usam seu poderio econômico e social para amedrontar quem fala o que sabe, usando o sistema que deveria puni-los para esmagar quem ousa denunciar. A justiça nesse país está longe de ser cega. Ela vê, o tempo inteiro, a cor de pele, o saldo bancário e o sobrenome. Já pensou se a droga tivesse sido encontrada na casa de um jovem preto da favela?
E, como se todos os absurdos já não fossem suficientes, dois dos jovens que espancaram o cachorro foram para a Disney. Isso mesmo: ao invés de serem repreendidos e punidos duramente, os meninos foram passear porque, segundo a família, a viagem já estava pré-programada.
Sim, o Brasil se indignou com a morte do Orelha, mas o que realmente deveria nos tirar o sono é o que estamos fazendo com os nossos jovens. Precisamos olhar para além do crime e enxergar o vazio emocional que ele revela. Os quatro adolescentes que torturaram até a morte um cachorro poderia ser os nossos filhos ou colegas dos nossos filhos. Garotos que você olha e não vê nada de errado porque são meninos que têm tudo. Tudo, menos limite.
A falta de limites não é liberdade, é abandono. Quando um jovem acha que não tem ninguém olhando por ele, ele acredita que pode fazer qualquer coisa que ninguém não vai nem notar. Quando não ensinamos uma criança a respeitar um animal, estamos falhando em ensiná-la a respeitar um ser humano. Esses jovens não brotaram do nada. Eles são frutos de uma cultura que evita o ‘não’, que transforma a dor do outro em entretenimento e que se omite diante da formação do caráter. Pais omissos estão relativizando o erro ou tentando justificar ou defender atitudes indefensáveis, contribuindo para a normalização daquilo que jamais deveria ser aceito. A violência começa no silêncio da omissão. Ela não surge de repente. Se constrói no descuido, na ausência, no ódio banalizado, na tolerância ao erro.
Casos como esses nos deixam – ou deveriam deixar – um importante alerta. O que aconteceu com o Orelho expôs a ausência de limites morais e a naturalização da maldade. Porque quando a dor do doutra vira diversão, algo essencial está perdido.
Que tipo de jovem estamos formando? Nossos filhos estão aprendendo a conviver em sociedade ou estão entendendo que o mundo gira em torno dos próprios desejos, custe o que custar? A educação é o único antídoto contra a barbárie. O futuro do mundo está dentro da nossa casa, na forma como ensinamos nossos filhos a tratar quem não pode se defender.
O que leva quatro adolescentes da elite catarinense a bater em um cachorro até a morte? Quem faz isso com animal, também bate em mulher no elevador, dopa jovem na balada, atropela trabalhador a 200km/h em seu carro esportivo, atira em gari. Os jovens que fazem esse tipo de coisa hoje e passam impunes, amanhã são os mesmos que ateiam fogo em indígena que dormia em pontos de ônibus. Em 1997, Galdino Pataxó faleceu com 95% do corpo queimado. Os jovens disseram que era uma “brincadeira”. Quase nada aconteceu a eles. Certamente nada acontecerá aos quatro jovens. Mas a gente não pode perder a capacidade de se indignar. Se não houver correção pela justiça, que a gente consiga corrigir os nossos filhos para que eles não repitam atrocidades com essa.
Pedir justiça pelo Orelha é pedir proteção por todos nós.

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