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Universidade pública não é ameaça, é patrimônio

Proteger filhos não é cria-los em bolhas. É oferecer repertório, pensamento crítico e capacidade de lidar com o mundo. É formar pessoas capazes de pensar. A universidade pública, com todos os seus desafios, continua sendo um dos poucos espaços no Brasil onde isso acontece. Mas, ao que tudo indica, há quem esteja disposto a enfraquecer esse espaço.

Nesta semana, a filha do ex-jogador de futebol Túlio Maravilha divulgou em suas redes sociais um vídeo ao lado dos pais dizendo que havia sido aprovada em duas universidades federais, mas que optaria por uma instituição particular por estar mais alinhada aos “princípios familiares” em que acreditam.
Sim: ela foi aprovada em cursos concorridos, em instituições como a UFRJ e a Uerj. Ainda assim, o pai e a mãe resolveram vetar a escolha. O motivo? “Valores”, “princípios” e aquele discurso já cansado de que a universidade pública não se alinha ao pensamento da família.
O vídeo viralizou e o que poderia ter permanecido como uma decisão privada transformou-se em debate público. A recusa deixou de ser apenas uma escolha educacional e assumiu contornos ideológicos. Quando alguém afirma que a universidade pública não combina com “os valores da família”, sugere que esse espaço é contaminado, perigoso, moralmente inadequado.
Túlio Maravilha, ex-jogador da Seleção Brasileira, construiu fama pelo talento nos gramados, mas também carrega um histórico controverso. Em 2010, foi condenado por fraude eleitoral, com pena posteriormente convertida em prestação de serviços comunitários. Desde 2014, a Caixa Econômica Federal cobra judicialmente um empréstimo consignado contratado em seu nome em 2009. Há ainda o relato público da jornalista Bárbara Coelho, que afirmou ter passado por situação constrangedora durante a gravação do piloto de um programa esportivo, quando, após a entrevista, o ex-jogador teria exibido imagens íntimas no celular. Ao que parece, entre os valores e princípios defendidos pela família Maravilha não estão o respeito às leis ou às mulheres e a honra a compromissos firmados. Túlio nunca frequentou uma universidade pública e agora se coloca como árbitro moral da instituição.
O vídeo da família não revela apenas zelo parental. Ele ecoa um discurso que vem sendo amplamente difundido para descredibilizar políticas públicas educacionais. A universidade pública brasileira, apesar de suas dificuldades, permanece como uma das mais importantes ferramentas de mobilidade social do país. É nela que se formam médicos, dentistas, professores, pesquisadores e cientistas. É onde os mais pobres entram e as vidas mudam.
Eu me formei em uma universidade pública, com professores altamente qualificados com doutorado, pós-doutorado, produção científica real, debate intelectual forte, pesquisa, extensão, pensamento crítico, diversidade de ideias. A universidade pública não forma apenas um profissional, forma gente que pensa (e talvez aí esteja a desconexão com a família “Maravilha”).
Criticar a universidade pública tornou-se, para muitos, um posicionamento político quase automático, frequentemente adotado por quem jamais passou por uma. Quando uma família vai às redes sociais afirmar que proibiu a filha de frequentar esse espaço, reforça-se um discurso perigoso.
Ao associar a universidade pública à precariedade, à desordem ou ao “comunismo”, deslegitima-se a instituição e a enfraquece. Os passos seguintes são conhecidos: cortes orçamentários, estrangulamento financeiro, ataques à carreira docente, desvalorização da pesquisa e da autonomia universitária. E a privatização aparece como solução inevitável. Desvaloriza-se a educação pública e transforma o ensino em mercadoria hierarquizada.
A contradição entre o discurso da família Maravilha, de defesa de valores familiares, e o passado inadequado do ex-jogador, expõe o viés ideológico pouco racional daqueles que condenam a universidade pública. Todos os exames nacionais de avaliação do ensino superior mostram que a qualidade da universidade pública, em geral, é muito superior às da particular. O Enade já mostrou, o Enamed comprovou.
Proteger filhos não é cria-los em bolhas. É oferecer repertório, pensamento crítico e capacidade de lidar com o mundo real. É formar pessoas capazes de pensar. A universidade pública, com todos os seus desafios, continua sendo um dos poucos espaços no Brasil onde isso acontece. E, ao que tudo indica, há quem esteja disposto a enfraquecer esse espaço.

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