segunda-feira , 1 junho 2026
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Nós contamos vidas perdidas. Eles contam dinheiro ganho

O que pode desarticular o crime organizado não são as vidas perdidas, mas o dinheiro perdido. O CV não se importa em perder vidas. Eles sabem que essa é a lógica do jogo. Mas o PCC ficou desnorteado com a operação que mirou o dinheiro e não os corpos. A raiz dos nossos problemas de segurança pública não está dentro dos barracos no morro. Está nos grandes escritórios da Faria Lima

Mais um massacre nas favelas do Rio de Janeiro. Mais mortos. E, mais uma vez, a gente continua com as discussões erradas. Nas redes sociais e por todos os lados as pessoas debatem se a polícia deve ou não matar. Se o governador Cláudio Castro foi bandido ou herói. Se Lula está certo ou errado. Mas o debate sobre segurança pública não passa por nenhuma dessas questões.
Antes de qualquer coisa, a gente precisa concordar que a operação foi um desastre. Foram 18 mil metros quadrados de caos. Ao menos 16 bairros afetados, o que significa dizer que mais de 5 milhões de pessoas estiveram no meio do fogo cruzado. Mais de 100 mortes. Morreram policiais. Morreram bandidos. Famílias ficaram destroçadas. As cenas eram de guerra. Corpos estendidos no chão, cabeças esmagadas, sangue jorrando por todo o canto. E sabe o que que mudou para a sociedade? Absolutamente nada! Sacrificaram policiais e mataram peixes pequenos. Enquanto escrevo este texto, o Comando Vermelho já deve ter recrutado mais 100 ou 200 jovens para substituírem aqueles que foram mortos.
Fiz uma pesquisa rápida e descobri que, desde 1990, data da Chacina do Acari, o Rio de Janeiro registra mais de 50 massacres em favelas. Chacina da Candelária, de Vigário Geral, do Borel, do Complexo do Alemão, de Jacarezinho, da Maré… Sempre a mesma cena: polícia subindo morro e deixando corpos estendidos no chão, entre eles, os de alguns colegas de farda. Sabe qual foi a diferença que essas ações fizeram na segurança pública do estado? Nenhuma. Esta semana mais de 100 pessoas foram mortas e essas vidas perdidas também não farão diferença nenhuma para a população que anseia por liberdade, segurança e vida digna.
Em agosto a gente acompanhou uma megaoperação que tinha como foco o Primeiro Comando da Capital. A Operação Carbono Oculto mobilizou 1,4 mil agentes em oito estados para desarticular o esquema financeiro do PCC no setor de combustíveis. O resultado: nenhuma morte, R$ 3,2 bilhões de bens bloqueados de financiadores do crime. Entre os bens bloqueados estão um terminal portuário, quatro usinas de álcool, 1,6 mil caminhões, mais de 100 imóveis e participação em 40 fundos de investimento na Faria Lima (uma importante avenida de São Paulo, conhecida como o principal centro financeiro do Brasil).
Pesquisas já apontaram (e a gente não precisa ser especialista para conhecer esses números) que operações com características de violência e letalidade não resultam em nada. É necessária e urgente uma atuação baseada em trabalhos de inteligência que impeçam ou reduzam o financiamento do crime. O que pode desarticular o crime organizado não são as vidas perdidas, mas o dinheiro perdido. O CV não se importa em perder vidas. Eles sabem que essa é a lógica do jogo. Mas o PCC ficou desnorteado com a operação que mirou o dinheiro e não corpos. Mas sabe por que operações como a da Faria Lima, em São Paulo, são muito mais raras do que as chacinas no Rio? Porque a guerra no Rio de Janeiro não é para pacificar o território, mas para dar espaço para a entrada da milícia aliada. O Comando Vermelho é historicamente contrário a acordos com a polícia. Assim, a disputa não é para acabar com o crime organizado, mas para dar espaço ao crime-organizado-amigo.
A raiz dos nossos problemas de segurança pública não está dentro do barraco no morro. Está nos grandes escritórios da Faria Lima e de tanto bairro nobre por aí.
Enquanto a nossa sociedade aplaudir “cpf (de pobre) cancelado”, partidarizar toda e qualquer para defender “político de estimação”, os figurões do crime e as autoridades mal-intencionadas seguirão tirando vidas para limpar o território para entrada de milícias que aumentem suas fortunas. E a gente vai continuar vendo corpo estendido no chão, mães chorando pelos filhos mortos brutalmente, crianças sem poder ir para escola por conta de tiroteio, em um ciclo interminável de violência, rancor, vingança…
Este não é um texto para “defender bandido”, como costumam me acusar sempre que falo sobre operações policiais desastrosas. Nem é para sugerir que a polícia suba o morro com flores. É para pedir que o estado suba o morro com educação, saúde, cultura, esporte, lazer e que lute pelos nossos jovens com um empenho maior do que o tráfico os recruta. É para fazer entender que existem políticas públicas de segurança diferentes da que estão implantadas aí, mas que a gente tem escolhido governantes que simplesmente não se importam. Ano que vem a gente tem mais uma chance.

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