Hoje cedo, enquanto encarava uma manhã fria, uma conversa aleatória tomou a sala de musculação que eu estava. Tudo havia começado por conta da notícia de que uma influencer havia sido detida por vender e fazer apologia às drogas em suas redes A operação foi chamada de “ervoafetiva”. No meio da conversa, alguém lembrou da Virgínia, influencer chamada a prestar esclarecimentos na CPI das Bets, outro falou que as Bets beneficiavam os políticos e a conversa acabou com uma frase que já virou jargão nos debates menos acalorados sobre política: “Ah, político é tudo igual”! E esta, talvez, tenha sido a parte mais “perigosa” da conversa.
Há um mal profundo na sociedade que põe em risco a vida democrática. Trata-se justamente da ideia de que os políticos são todos iguais. A frase, que parece inocente e pode acalmar os ânimos de ambos os lados, carrega um aspecto muito negativo, o de que sendo todos iguais, não vale a pena escolher. E, daí, as taxas de abstenção, os votos por razões menos dignas do que o bem comum, as defesas apaixonadas por este ou aquele candidato sem analisar friamente as suas ações.
Embora a gente tenha razão de sobra para alimentar o descrédito nas instituições, a verdade é que políticos não são todos iguais. Não mesmo! O Brasil é um dos países que mais possuem partidos políticos no mundo — são 29 cadastrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse extenso número de partidos acaba atrapalhando a visão do eleitor acerca da discussão política e das posições de cada um.
Se houvesse uma prestação de contas rotineira sobre, por exemplo, como cada deputado votou em decisões importantes, certamente seria possível que uma parcela cada vez mais significativa da população compreendesse que, mesmo numa época em que as cores partidárias perderam muito da sua autenticidade, é possível, sim, perceber diferenças muito claras entre os partidos e os parlamentares.
Neste ano, por exemplo, nós tivemos votações bem emblemáticas, daquelas capazes de dizer quem é quem e quais os principais interesses de cada legislador. A Pec da Blindagem, a taxação das bets, bancos e bilionários e o aumento do número de deputados federais foram alguns dos temas polêmicos, “debatidos” no Congresso e nas redes sociais com textão e frases de efeito, mas sem nenhuma profundidade. E no final, os deputados federais aprovaram o aumento das suas prerrogativas e do número de cadeiras na Câmara e rejeitaram a taxação dos jogos de azar que têm destruído vidas. Você lembra em quem você votou para deputado federal? Sabe como ele votou? Ele defende prerrogativas para ele mesmo e seus pares ou busca transparência em sua atuação? Ele dos que defende quem lucra com o prejuízo alheio ou pensa nas famílias inteiras destruídas por “Tigrinhos” e jogos afins?
Os números indicam tendências diferentes para partidos diferentes. No caso da votação da Pec da Blindagem, por exemplo, inúmeros jornais divulgaram gráficos mostrando os partidos que votaram a favor da proteção de políticos contra ações criminais. Uma análise, mesmo que pouco criteriosa, identifica as tendências partidárias ao perceber partidos que votaram 100% a favor e outros que votaram 100% contra e eles se posicionam em lados opostos nos debates políticos (publiquei o gráfico abaixo com os dados da Câmara).
Quando a gente interioriza que políticos são todos iguais a gente se abstém da responsabilidade de decidir sobre nossos representantes e quais os caminhos que a gente gostaria que eles seguissem. É o que já chamaram de “covardia cívica”, uma forma de autoalienação. Se são todos iguais, eu não posso escolher e, se não escolho, a culpa será sempre dos outros. É uma forma de virar as costas para o nosso destino e deixar que tomem as decisões por nós. Sobre a desculpa da igualdade, justificamos a nossa inércia.
Mas a gente não pode desistir. É preciso coragem para participar da vida pública, assumir nosso papel de cidadão e todas as responsabilidades das nossas escolhas.

