segunda-feira , 1 junho 2026
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Parece fofoca, mas é a nossa herança escravocrata

“Nossa sociedade ainda ainda guarda caracterísitcas e costumes escravocratas. A esposa do cantor sertanejo Leonardo afirmou ter tirado um menino de 15 anos da sua família para brincar com seu filho ainda pequeno. Mas poderia ser para trabalhar em situação análoga à escravidão ou para ser prostituída. O pobre segue sendo tratado como objeto comprável de uso temporário

Ok, ok…
Todo mundo que viveu a década de 90 deve lembra que quando Nelson Rubens começava uma frase assim, a gente já sabia que vinha fofoca grande dos artistas na TV Fama. Então, vamos começar nossa conversa hoje com uma história que parece fofoca de artista, mas vai muito além.
Li nesta quinta-feira, no Estadão, uma notícia de que a mulher do cantor sertanejo Leonardo, Poliana Rocha, havia dado uma entrevista em um programa da Rede TV, e contato uma história, no mínimo, polêmica. A influenciadora disse que, quando seu filho, o também cantor Zé Felipe (aquele ex-marido da Virgínia, aquela que depôs na CPI das Bets), ainda era pequeno, a família fez uma viagem a Ilhéus. Um dia um menino de cerca de 15 anos, apareceu na praia onde estavam vendendo chinelos. O pequeno vendedor aproximou-se da família e interagiu com Zé Felipe, ainda criança, brincando de bola. Os meninos pareciam se dar bem, como acontece com frequência com crianças que se encontram aleatoriamente enquanto acompanham os pais. Leonardo, então, pediu que o menino ficasse com eles ali, fazendo companhia ao filho, durante a estadia em Ilhéus. No dia de voltarem a Goiânia, o sertanejo perguntou se o vendedor gostaria de ir com eles, viajar de avião. A criança, claro, aceitou. Qual criança (principalmente uma criança pobre que trabalha para ajudar no sustento da família) não se encantaria com a proposta de viajar de avião ao lado de um cantor famoso? E então, de acordo com a própria Poliana, sem avisar aos pais do menino, eles voaram para Goiania.
Tudo correu bem até que o adolescente parou de brincar com Zé Felipe, que ainda era uma criança. Então, ainda segundo Poliana, ela levou o menino ao salão, fez uma progressiva em seu cabelo (“ele tinha um cabelo maltratado”, segundo ela), deu remédio de verme a ele, comprou umas roupas e um walkman e o devolveu de volta para a Bahia, um mês e meio depois.
Eu vou me repugnando enquanto escrevo essa história por inúmeros motivos. No vídeo, o jeito que a influencer conta a história é de uma desfaçatez que desnuda a crueldade da classe dominante. A fala de Poliana diz muito sobre as nossas heranças escravocratas que objetificam os mais pobres. Um adolescente foi alugado para brincar com uma criança de família rica e quando o “item de consumo” começou a “dar defeito” ele foi, como ela mesma contou, “despachado para a Bahia” (palavras dela). A lógica do servir, oriunda da escravidão, continua a chegar de maneira cruel.
Além disso, a mãe do adolescente é desumanizada como se fosse isenta de dor. Ninguém falou com ela. Ninguém procurou saber quem era a família desse menino (que durante toda a história segue sem nome, como deve ser quando tratamos de objetos sem nenhum valor), nem mesmo após “devolvê-lo”.
Para dizer que cuidou da criança, Poliana afirmou que fez progressiva e deu remédio de verme. Só faltou dizer que cuidou dos dentes para o pequeno escravinho ter mais valor no mercado.
A influencer milionária, esposa de um dos cantores mais famosos do Brasil parecia não ter lucidez da gravidade do que estava contando, pelo contrário, ela parecia querer mostrar o quanto tinha sido generosa. Mas é muito degradante a forma como os ricos se beneficiam de pessoas pobres. Nossa sociedade ainda bebe da fonte escravocrata. A má distribuição de renda faz com que vários meninos e meninas fiquem vulneráveis a situações como essa.
Poliana contou uma história de um menino que foi tirado da sua família para brincar com outro. Mas poderia ser para trabalhar em situação análoga à escravidão ou uma menina levada para ser prostituída. A infância pobre é tratada como objeto de uso temporário, como companhia descartável, como se não tivesse família, pertencimento, afeto e direitos. Embora a história tenha sido contata em um tom de generosidade, como se a família tivesse oportunizado grandes coisas àquele menino, essa santidade atribuída a ricos é uma mentira naturaliza a ideia de que crianças pobres podem ser retiradas de suas vidas e de suas famílias sem que isso seja visto como violência. É a diferença de classe operando na desumanização, transformando preconceito em fofoca de programa de entrevista.
Enquanto vidas e infâncias forem contadas assim, como histórias banais, o Brasil seguirá sendo um país que se recusa a reparar sua história. O que está em jogo aqui não é um episódio do passado: é a repetição, todos os dias, do mesmo pacto colonial banalizado por nossa sociedade.

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