terça-feira , 2 junho 2026
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Dividir para governar. Unir para conseguir avançar

“A agressividade política no Brasil transformou o debate em "campo minado", resultando em silêncio e quebra de laços sociais. Parece que a gente segue caindo no mais antigo truque usado pelos sistemas de poder: o de dividir para governar. (...) Mas, na verdade, os detentores do poder nunca estiveram, de fato, separados ou divididos’’

Na última semana, encerrou-se a janela partidária, um prazo de 30 dias para que parlamentares possam mudar de partido sem perder o mandato. Esse período acontece seis meses antes do pleito. É isso mesmo: agora faltam menos de seis meses para as próximas eleições e a gente deveria estar se mobilizando para uma escolha mais consciente do nosso futuro.
A verdade, no entanto, é que a gente tem fugido deste debate. A polarização e a agressividade no debate público levaram uma parte expressiva da população brasileira a silenciar ou evitar conversas sobre política. Pesquisas recentes indicam que cerca de 50% a 67% dos brasileiros adotaram posturas cautelosas para evitar conflitos. Um estudo feito em 2025 mostrou que 56% dos usuários de aplicativos de mensagens sentem medo de emitir opiniões devido à agressividade e 50% evitam o tema em grupos de família. Cerca de 59% dos jovens brasileiros preferem não debater política online por medo de cancelamento ou agressividade.
A agressividade política no Brasil transformou o debate em “campo minado”, resultando em silêncio e quebra de laços sociais. Parece que a gente segue caindo no mais antigo truque usado pelos sistemas de poder: o de dividir para governar. Desde o império Romano, Julio César usava a estratégia política e militar clássica que consiste em fragmentar grupos poderosos, criando conflitos internos entre eles para enfraquecer oposição e facilitar o controle. Originada como divide et impera a estratégia visa evitar a união de adversários, mantendo-os desorganizados e em constante disputa. Mas, na verdade, os detentores do poder nunca estiveram, de fato, completamente separados ou divididos.
Em fevereiro, por exemplo, a gente debateu a aprovação dos supersalários de até 77 mil reais para servidores do próprio congresso, valor acima do teto constitucional. Quem votou a favor? Todo mundo. Apenas o partido Novo foi completamente contrário à proposta. Em 2023, PT e PL também se uniram para aprovarem um fundo eleitoral de mais de R$ 5 bilhões para eles mesmos. Enquanto isso, mais de 80% das famílias brasileiras seguem endividadas.
A corrida eleitoral começa a tomar forma. Ao que tudo indica, a vaga no Planalto seguirá sendo disputada por Lula e Bolsonaro (agora não mais o Jair, mas o Flávio). As torcidas já estão divididas desde 2018. Amizades foram desfeitas, famílias separadas… tudo para defender políticos de estimação que fomentam essa guerra entre a gente, mas não necessariamente entre eles. Lula e Geraldo Alckmin, por exemplo, centro de tantas disputas por décadas, compuseram a mesma chapa na eleição passada e hoje comando o país juntos. PT e PL, que agora são responsáveis por brigas, agressões e até mortes, não podem se dizer tão opostos assim.
Quer um exemplo significativo? Valdemar da Costa Neto, grande ídolo da direita, presidente do PL, foi preso durante a investigação da Lava Jata no caso do Mensalão, escândalo que o PT comprava deputados para votar a favor do governo lula. O PL de Valdemar e da família Bolsonaro, recebeu na época mais de R$10 milhões. Condenado pelo STF, Costa Neto dividiu a cela com José Dirceu, mentor intelectual do PT. Em entrevista, Dirceu descreveu uma convivência na cadeia como “amistosa”. E você aí brigando com sua tia porque ela vota em um partido diferente do seu.
Este não é um texto para dizer que todos os políticos são iguais, nem para desestimular a participação nas eleições. Muito pelo contrário. É um convite para que a gente respire fundo antes de reagir, analise melhor os fatos e pare de transformar políticos em ídolos — porque, no fim, são agentes públicos, e é assim que devem ser tratados.
É também um chamado para que a gente volte a debater de verdade os problemas do país, juntos. Porque o problema não está apenas na renúncia fiscal bilionária ou nos programas sociais. Está em um sistema que se beneficia da nossa desatenção.
O verdadeiro detentor de poder em uma democracia é o povo. Mas, quando a gente deixa de acompanhar, fiscalizar e cobrar, esse poder se enfraquece. E, no lugar disso, gastamos tempo, energia e relações pessoais em disputas que não constroem nada.
Ficam, então, esses próximos seis meses como uma oportunidade. De se informar melhor. De ouvir mais. De discordar com respeito. De entender, com profundidade, pelo que estamos lutando.
Porque, no fim das contas, a democracia só existe quando há convivência entre diferentes. E não existe outro caminho — senão por meio dela, com diálogo e respeito.

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