Nelson Rodrigues estava certo: o brasileiro sofre, sim, de um “complexo de vira-lata”. Mesmo quando o país conquista reconhecimento internacional no cinema — como ocorreu com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto — parte do público continua a desvalorizar a própria cultura, tratando essas conquistas com desconfiança ou indiferença. Em vez de celebrar a potência criativa do país, surgem questionamentos ideológicos, comparações desfavoráveis com produções estrangeiras e a — hoje onipresente — polarização.
O Agente Secreto fala sobre a ditadura, sobre a perseguição sofrida por um professor e pesquisador universitário. Fala sobre o nosso passado; “é um filme sobre memória”, como destacou Wagner Moura em seu discurso ao receber o prêmio. Mas, por aqui, seguimos presos às mesmas discussões cansadas sobre partidarismo, posicionamento ideológico e a Lei Rouanet.
A intenção deste texto não é essa, mas vale abrir um parêntese para esclarecer alguns desinformados — ou mal-intencionados. A Lei Rouanet foi criada em 1991, no governo Collor (não tem absolutamente nada a ver com Lula, Dilma ou o PT), e tem como objetivo o fomento à cultura. De acordo com pesquisas recentes, a indústria cultural gerou proporcionalmente mais emprego e renda do que a indústria automobilística. Em 2025, a cultura gerou 60% mais empregos do que a fabricação de automóveis — setor que, vale lembrar, recebe incentivos públicos altíssimos, como qualquer grande indústria.
Nem Ainda Estou Aqui, estrelado por Fernanda Torres, nem O Agente Secreto, com Wagner Moura, receberam incentivos da Lei Rouanet, já que a lei não abrange longas-metragens. Diferente do que se espalha por aí, não são artistas identificados com a esquerda os maiores beneficiários da Rouanet. Em 2025, os dez artistas que mais captaram recursos por meio da lei são sertanejos que já se declararam apoiadores da direita. A lista é encabeçada por Gusttavo Lima, com mais de R$ 50 milhões arrecadados, e inclui nomes como Bruno & Marrone, Eduardo Costa, Leonardo e até Zezé Di Camargo.
Fechado o parêntese, voltemos ao tema central.
Os brasileiros Fernanda Torres e Wagner Moura deveriam ser tratados como orgulhos nacionais. No entanto, passam os dias sendo atacados por campanhas de desinformação. Esse comportamento revela mais do que uma simples divergência de gosto: expõe uma dificuldade histórica de valorização da própria cultura. O país que exporta narrativas potentes, capazes de dialogar com públicos diversos e figurar entre as melhores do mundo, insiste em tratar sua produção cultural como algo menor.
O “complexo de vira-lata”, longe de ser apenas uma provocação de Nelson Rodrigues, segue operando como uma lente distorcida através da qual o Brasil se enxerga. Superá-lo não significa abolir críticas ou transformar toda obra nacional em objeto de culto. Significa, antes de tudo, reconhecer o valor da cultura brasileira. E, nesse processo, Wagner Moura tem desempenhado um papel fundamental.
O ator recusou diversos papéis lucrativos em Hollywood para não reforçar estereótipos latinos. Um deles foi o do vilão Maxwell Lord, em Mulher-Maravilha 1984. Recusou Hollywood, recusou o dinheiro fácil, recusou americanizar sua história e disfarçar o sotaque. Optou por fazer um filme 100% em português, sobre a ditadura militar, ambientado no Nordeste brasileiro — um projeto em que poucos acreditavam. Mas deu certo.
O Agente Secreto venceu prêmios de melhor ator e melhor direção em Cannes, melhor ator pelo New York Critics, acumulou mais de 50 prêmios ao redor do mundo e, no último domingo, levou o Globo de Ouro de melhor ator e de melhor filme em língua não inglesa. Wagner sambou no backstage, gritou “Viva o Brasil”, discursou em português e virou notícia internacional. Ele quis ganhar sendo brasileiro. E ganhou.
O primeiro homem brasileiro a receber o Globo de Ouro veio do sertão baiano, teve uma infância pobre e viu sua cidade ser inundada após a construção da hidrelétrica de Itaparica. Wagner Moura nunca esconde que é fruto de políticas públicas, de leis de incentivo à cultura e da universidade pública. Faz questão de afirmar que não chegou onde chegou sozinho.
É isso que precisamos compreender: o Brasil tem muitos “Wagners” em potencial. Muitas crianças talentosas que só conheceremos se garantirmos a elas as mesmas oportunidades de desenvolver esse talento. Cada vez que desmerecemos um prêmio por paixão cega por este ou aquele político; cada vez que, movidos por essa mesma paixão, apoiamos o corte de verbas da cultura e o sucateamento da educação pública, desperdiçamos gerações inteiras de artistas, cientistas, pensadores e profissionais brilhantes. Perdemos a chance de ver o Brasil sendo aplaudido lá fora.
Que o país consiga honrar e acolher seus pequenos Wagners. Que saibamos aplaudir nossos feitos. Que saibamos aplaudir os brasileiros.
