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Nem maiores nem mais fortes. A gente quer ser livre

“A luta por igualdade não passa por questões biológicas, nem por manifestações de cavalheirismo com as mulheres ou de cuidado em casa com os homens. Passa, principalmente, pelo direito de ser livre. Livre para escolher a profissão que quiser, para desempenhar a “missão” que quiser, para realizar os sonhos que quiser – de ser princesa ou astronauta’’

Logo que os astronautas do Artemis II voltaram do sobrevoo lunar, li a notícia de que, entre os tripulantes, apenas Christina Koch, a única mulher da equipe, não tinha filhos. A matéria era mais uma evidência comprova que a maternidade impõe barreiras para o desenvolvimento profissional e para a realização pessoal da mulher que a paternidade não impõe (e eu não estou falando sobre gravidez, puerpério e lactação. Os obstáculos duram a vida inteira).

Homens e mulheres ainda estão muito longe de terem direitos iguais. E a luta por igualdade não passa por questões biológicas, nem por manifestações de cavalheirismo com as mulheres ou de cuidado em casa com os homens. Passa, principalmente, pelo direito de ser livre. Livre para escolher a profissão que quiser, para desempenhar a “missão” que quiser, para realizar os sonhos que quiser – de ser princesa ou astronauta. Livre para andar na rua sem ser estuprada ou morta. Livre para terminar um relacionamento sem perder a vida. Livre para ser mãe sem ter que deixar de ser gente – gente que tem vontades, que sonha, que quer se realizar em outros setores.

Há muitas décadas a gente vem tentando fazer a sociedade, formada por uma hegemonia masculina, ir se desconstruindo e dando mais espaço para as mulheres. Mas quando a gente acha que está avançando, vem algum “macho alfa” e faz as coisas regredirem.

Nesta quarta-feira, o ator Juliano Cazarré anunciou o evento “O Farol e a Forja Summit”, o que ele mesmo definiu como “o maior encontro de homens do Brasil”. De viés conservador, a proposta gira em torno de temas como “liderança masculina” e o apoio a homens que, segundo a divulgação, estariam “enfraquecidos pela sociedade”. Segundo ele, muitos homens estariam “perdidos” e “pagando um preço alto por isso”.

“Summit” é um termo inglês para cúpula, ápice. Segundo o próprio ator, a proposta é promover reflexões sobre o papel do homem na sociedade contemporânea, em um contexto que ele considera marcado por distorções e incompreensões. Pelo que posso interpretar do título do encontro, o ator vai buscar colocar, ainda mais, os homens no ápice da sociedade. Para as mulheres, a base, a sustentação, o peso.

Cazarré não traz nada de novo. Na verdade, ele apenas vai criar mais um grupo para a “machosfera”, como são chamadas as comunidades online que incentivam comportamentos agressivos de homens, inclui movimentos que defendem a superioridade masculina, a submissão feminina e a misoginia. Ele fala em “virtudes”, mas vai reforçar estereótipos e discursos já considerados ultrapassados, que, inclusive, têm aumentado em muito o número de feminicídios no Brasil. O “Farol e a Forja” será mais um entre tantos grupos que disseminam barbaridades por aí.

Já precisamos combater os “Red Pills”, que afirmam fazer parte de uma parcela da população que decidiu “acordar” para um mundo em que as mulheres têm mais direitos e privilégios que os homens (que mundo é esse?). Tentamos aguentar os “incels” que já foram caracterizados como homens frustrados e que passam a cultivar o sentimento de ódio contra as mulheres. Descobri há pouco tempo, que existe também o MSTOW grupo formado por homens que acreditam que a sociedade está contra eles e que a melhor opção é evitar as mulheres. No grupo, é comum serem vistos ataques às leis de proteção contra mulheres e também às iniciativas de igualdade de gênero. Agora, me vem Cazarré, em meio a uma epidemia de feminicídios, falar em nome de Jesus, sobre “enfraquecimento masculino”.

Antes de 1962, o Código Civil determinava que a mulher casada precisava de autorização do marido para quase tudo. Só há pouco mais de 60 anos, as mulheres conseguiram o direito de trabalhar, administrar bens próprios e exercer a cidadania sem a autorização obrigatória do marido, encerrando a sua condição legal de “incapaz”. Só depois do Estatuto da Mulher Casada, as mulheres conquistaram direitos civis básicos como a capacidade para assinar contratos, viajar, receber heranças e realizar atos da vida civil sem o aval do marido. Só em 1980, as mulheres conseguiram, de fato, ter o CPF próprio, diferente do marido. Até então, a mulher era considerada dependente fiscal e civil do cônjuge.

Diferente do que deve achar Juliano Cazarré e tantos outros criadores de “Summit”, essas conquistas femininas não representam um enfraquecimento masculino, mas um reconhecimento de direitos, de dignidade, de liberdade! A gente não quer ser maior ou mais forte. A gente quer ter o direito de sonhar, inclusive, com poder tocar a lua.

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