Se eu começasse este texto contando a história de uma mulher que deixou seu filho recém-nascido para participar de um reality show e que, ao entrar no programa, contou para várias pessoas que já havia traído o seu marido — aquele com quem havia deixado seu filho pequeno — e que, em menos de uma semana de confinamento, afirmou ter cobiçado vários homens da casa e, inclusive, tentou beijar um deles em uma despensa, qual seria o julgamento que vocês fariam sobre ela? Pois bem. A história é real, mas aconteceu com um homem.
No último domingo, em uma casa cheia de câmeras, um dos participantes do BBB, Pedro, segurou o pescoço de outra participante, Jordana, e tentou beijá-la à força. Após encurralá-la contra a parede de uma despensa para beijá-la, a moça pergunta: “O que você está fazendo?”. A resposta dele diz muito sobre o machismo: “Estou fazendo o que tive vontade de fazer”.
Pedro entrou no reality deixando para trás a esposa grávida de sete meses. Se tivesse ido mais longe no jogo, não veria sua primeira filha nascer. Ainda assim, muita gente viu esse ato como um empenho “pela família”. Em menos de uma semana no programa, Pedro contou a inúmeros participantes que havia traído a mulher. E, antes mesmo de montarem o primeiro paredão, assediou uma das colegas de confinamento. Ao apertar o botão de desistência, afirmou que “entendeu errado”, ao achar que a menina estava dando em cima dele quando ela disse que iria ver se havia um aparelho de babyliss na despensa. Após a saída da casa, outro participante afirmou: “É terrível o que ele fez, mas eu tenho pena”. A frase foi acompanhada por um coro que não só concordou, como justificou: “Ele é só um menino”.
Mas Pedro não é mais um menino — e já passou da hora de responsabilizarmos homens adultos por seus atos. O que ele fez tem nome: importunação sexual, e é crime. Durante seu depoimento no confessionário, Pedro disse que já estava há algum tempo se “segurando para não cobiçar as outras meninas”. Uma narrativa cansada, usada repetidamente para vitimizar o culpado que “não conseguiu se conter”. Mas esse instinto masculino não é natural: ele é aprendido, construído e reforçado diariamente.
Quando dezenas de câmeras não são suficientes para proteger uma mulher, é porque os homens têm certeza de que podem, sim, fazer o que quiserem com ela. “Fiz o que tive vontade de fazer”, disse o próprio Pedro enquanto assediava Jordana. O fato é que, quando se é mulher, não há lugar suficientemente vigiado para ser seguro. Porque os homens continuam fazendo o que sentem vontade.
A palavra da mulher ainda é questionada. A violência ainda é relativizada. Os exemplos estão aí: Maria da Penha, Elisa Samudio, Tainara Santos, Jordana… Nomes de vítimas da misoginia em uma sociedade que mata mulheres e invade seus corpos todos os dias.
A palavra que humilha, as mãos que puxam o gatilho e o carro que arrasta, mutila e mata saem da mesma fonte. Não existe feminicídio que surge do nada. O feminicídio é o ápice da violência. Na base estão a piadinha, o deboche, a cobiça, o encurralamento em uma sala fechada. Quando relativizamos a base, sustentamos o topo. Silêncio, omissão e relativização são o sustentáculo da sociedade patriarcal violenta. Ao conversar com os colegas de confinamento, Jordana disse que, no começo, só conseguia pensar no que ela poderia ter feito para que ele achasse que ela havia dado liberdade. Porque aprendemos, desde meninas, que é nossa responsabilidade conter o desejo do outro: “fecha as pernas”, “senta direito”, “se comporta”, “que roupa é essa?”.Na nossa sociedade, homens são ensinados a confundir desejo com direito, e a violência torna-se traço de virilidade. E a sociedade que produz Pedros precisa se responsabilizar. Todos os dias, meninas e mulheres têm seus corpos e sua dignidade marcados pela violência machista e misógina. E isso não é brincadeira, não é imaturidade, não é exagero, não é “mal entendido”
Pedro não é inocente, não é “só um menino”, mas também não é um monstro. Ele é fruto de uma sociedade machista que assim o criou. O que ele fez é comum. Não existe uma mulher que não tenha sido Jordana ao menos uma vez na vida — em uma festa, no carnaval, no trabalho. A diferença é que, sem câmeras, nossa voz não é ouvida. Nossa sociedade cria Pedros diariamente.
Quando nasce um menino ou uma menina, já traçamos destinos. O menino ganha o direito — às vezes até o dever — da violência para reafirmar sua masculinidade. A menina precisa se resguardar. Aos meninos ensinamos que não há limites; às meninas, que precisam se diminuir para caber.
Ao conversar com os colegas de confinamento, Jordana disse que, no começo, só conseguia pensar no que ela poderia ter feito para que ele achasse que ela havia dado liberdade. Porque aprendemos, desde meninas, que é nossa responsabilidade conter o desejo do outro: “fecha as pernas”, “senta direito”, “se comporta”, “que roupa é essa?”. Na nossa sociedade, homens são ensinados a confundir desejo com direito, e a violência torna-se traço de virilidade. E a sociedade que produz Pedros precisa se responsabilizar.
