É comum que a relevância de determinados temas seja percebida pela sua presença nas rodas de conversa, independentemente do contexto social em que elas ocorram, seja durante o almoço em família, em reuniões de pais e mestres nas escolas ou mesmo em ambientes mais descontraídos, como um happy hour após o trabalho. Nesse cenário, chama atenção o espaço cada vez maior ocupado pelas discussões relacionadas à inteligência artificial, frequentemente mencionada com familiaridade e reduzida à sigla IA.
Se, por um lado, é inegável que o tema já faz parte do nosso cotidiano e exerce influência direta sobre rotinas de trabalho, estudo e lazer, por outro, não se pode dizer que esse convívio venha acompanhado de um conhecimento igualmente disseminado sobre o seu funcionamento. A presença da IA já é constante nos aplicativos de trânsito, nos filtros de redes sociais que reconhecem rostos em publicações ou ainda nos assistentes virtuais que atuam na concessão de crédito, na seleção de currículos e no monitoramento de exames médicos. Muitas dessas aplicações influenciam escolhas e ampliam possibilidades, mas também carregam vieses e limitações que não são percebidas pela maioria dos usuários. Sem uma compreensão mínima de como a IA opera (especialmente no que se refere à transparência e à confiabilidade) e, sobretudo, dos desdobramentos éticos do seu uso, a aparente integração “natural” da IA em nossas vidas pode esconder riscos relevantes de curto, médio e longo prazo.
Ainda que não seja a intenção adotar um tom de letramento acadêmico ao tratar da inteligência artificial, é inevitável reconhecer que, diante de suas inúmeras possibilidades de aplicação e contribuição para as atividades humanas, os desafios éticos associados ao seu uso atingem a ciência com a mesma intensidade com que impactam a sociedade, refletindo em áreas sensíveis, como segurança pública, educação e saúde. À medida que a IA se consolida como ferramenta indispensável em diferentes setores, tanto na iniciativa privada quanto no serviço público, sua presença no campo científico se intensifica, transformando rapidamente a forma como o conhecimento é produzido, avaliado e divulgado.
No cenário internacional, agências de fomento à pesquisa de países como Alemanha, França, Holanda, Noruega e Suíça já promovem iniciativas voltadas à discussão e à incorporação da IA não apenas na execução de projetos, mas também nos próprios processos de avaliação das propostas de pesquisa. Da mesma forma, organizações internacionais, como a UNESCO, possuem diretrizes para o uso responsável da inteligência artificial na educação e no ambiente científico, sinalizando que a imersão nesse novo cenário é não apenas real, mas necessária e irreversível.
No Brasil, ações formativas e debates sobre IA também avançam em diferentes frentes, muitas vezes alcançando o grande público por meio das redes sociais e de mensagens promocionais que prometem soluções rápidas e resultados quase milagrosos para os mais diversos desafios. Paralelamente, organismos governamentais assumem o papel fundamental de fomentar discussões qualificadas sobre o uso consciente da IA e de estabelecer códigos de conduta e ações prioritárias para um convívio minimamente saudável entre o mundo real e o virtual.
Entre as iniciativas já disponíveis, merecem destaque alguns documentos que podem servir como leitura complementar aos leitores interessados em aprofundar o tema. O primeiro é o documento orientador lançado em 2026 pelo Ministério da Educação (MEC), em colaboração com a UNESCO, intitulado Inteligência Artificial na Educação Básica. O material propõe caminhos curriculares e práticas éticas para o uso da IA nas escolas, além de apresentar reflexões importantes sobre a diferença entre ensinar sobre IA e ensinar com o apoio da IA. Embora voltado à educação básica, o documento chama atenção para a transversalidade da inteligência artificial na sociedade e para a necessidade de observância de legislações como a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) e o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (Lei nº 15.211/2025), entre outras normativas essenciais.
No âmbito do ensino superior e, mais especificamente, da proposição, avaliação e condução de pesquisas científicas, documentos recentes como A inteligência artificial na pesquisa e no fomento: desafios e oportunidades, publicado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e a Política de Integridade na Atividade Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), divulgada em março de 2026, reforçam a necessidade de um diálogo atento e permanente. Ambos evidenciam o delicado equilíbrio entre as inegáveis potencialidades da IA para o avanço da ciência e a vigilância contínua quanto à ética, à transparência e à autoria das informações mediadas por algoritmos.
Na Bahia, a Secretaria de Ciências, Tecnologia e Inovação (SECTI) tem mobilizado instituições de pesquisa, gestores dos diferentes setores produtivos e a sociedade civil em geral para construção do Plano Baiano de Inteligência Artificial. A perspectiva é que o documento final seja base de políticas publicas para IA na Bahia.
Tal como ocorre com outros temas, é indispensável reconhecer que a informação é, por essência, uma fonte de liberdade e um elemento fundamental para a tomada de decisões. No entanto, ela exige distribuição adequada e condições educacionais mínimas para sua correta interpretação. Com a inteligência artificial não é diferente: sem um olhar crítico e cuidadoso, tanto o uso inadequado quanto a ausência de acesso a essas tecnologias devem ser evitadas, pois ambas as situações podem aprofundar desigualdades sociais já existentes.
Diante desse cenário, mais do que temer ou idealizar a inteligência artificial, é prioridade compreendê-la. A IA já participa de nossas escolhas, atravessa nossas rotinas e, seu impacto, tende a crescer. Investir em informação qualificada, educação e debate público é o caminho para transformar essa poderosa ferramenta em aliada do desenvolvimento científico e social, e, não, em mais um fator de exclusão incorporado ao cotidiano. Portanto, é esperado que, embora não exclusivamente, instituições presentes em nosso contexto regional, como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IFBaiano) possam contribuir mobilizando ações e discussões formativas.
Carlos Bernard M. Cerqueira Silva
Professor pleno do Departamento de Ciências Exatas e Naturais da uesb
