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“O luto é o que sentimos quando a presença se faz na ausência”

Nos últimos dias, a internet virou palco de debates após as reações de Tadeu Schmidt e Ana Paula Renault diante de perdas familiares — ele, ao receber a notícia da morte do irmão; ela, ao falar sobre o falecimento do pai. Entre julgamentos, empatia e estranhamento, uma pergunta: existe uma “forma certa” de viver o luto? Para aprofundar essa discussão, conversamos com a psicóloga Luana Requião, que traz reflexões importantes sobre o impacto da pressão social na maneira como expressamos a dor, especialmente em tempos de exposição constante. Até que ponto somos cobrados a performar sentimentos? A entrevista também aborda um fenômeno cada vez mais presente: o uso da inteligência social para manter vínculos com pessoas que já morreram.

Jornal Dimensão: Nesta semana, as formas de viver o luto viraram pauta para debate nas redes sociais em decorrência da postura mantida por Tadeu Schmidt e Ana Paula Renault. O que é o luto e por que ele pode se manifestar de formas tão diferentes em cada pessoa?

Luana Requião: Para tentar elaborar tal conceito, tomarei o pensamento do escritor José Saramago quando disse: “fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.” Penso que o luto tende a ser a condição paradoxal da presença da ausência! Consegue entender?

O luto é um substantivo carregado de dores e saudades e, por muitas vezes, de sofrimento. Ele é o que sentimos quando a presença se faz na ausência. Quando o que nos restam são as memórias. Ele pode nos trazer raiva, tristeza, impotência, remorso, mas também, alegria, gratidão e concernimento. A sensação de desamparo e solidão poderá se intensificar ou em meio a dor do luto, o indivíduo poderá se perceber capaz de suportar e/ou manejar as ambivalências da vida.

Por isso, importa lembrar que ao falarmos sobre luto, cada indivíduo tem o seu! A sua forma de enfrentá-lo ou não. Mesmo porque eu só posso pensar a relação com a morte, quando penso, anteriormente, a relação com a vida. Assim, pensar o luto e morte na visão Winnicottiana, implica falar na teoria do amadurecimento humano. Ao estudarmos a Natureza humana, percebemos que há uma tendência inata ao amadurecimento que é favorecido ou não pelo ambiente suficientemente bom no qual o sujeito esteja inserido. Ao viver, atravessamos medos, angústias, dúvidas, momentos conflitivos, frustrações…a saúde física e mental é uma Conquista permanente! No entanto, Winnicott já nos alertava que a integração alcançada nunca seria por completo, a morte seria nosso derradeiro aprendizado!

 

JD: A gente está acostumada a ver pessoas tristes e recolhidas ao viver o luto. Como entender pessoas que decidem seguir a rotina normalmente após uma perda recente? Isso é uma forma de enfrentamento ou de negação? Existe uma “forma correta” de viver o luto?

LR: Primeiro, deveríamos desconstruir essa ideia de “performace da dor” que nos classifica em: fortes/ frios (aqueles que parecem que não sentem) ou fracos (aqueles que são entregues ao sofrimento). Não precisamos performar! Não precisamos de classificação! Não temos que escolher na ambiguidade da vida! Importa percebermos como a sociedade do Prazer nos impõe regras para lidar com o luto e com a vida. E nos perguntarmos: faz algum sentido para nós?

Há uma frase dita por Winnicott que diz: “Oh Deus! Possa eu estar vivo quando morrer!”. A grande tarefa da vida adulta é continuar amadurecendo e continuar vivo (emocionalmente falando). E isso não é pouca coisa! Isso é uma luta! “É um privilégio estar vivo até morrer!” (Muitos morrem em vida…) Para esse teórico, importa como homens e mulheres podem apropriar-se das suas vidas e que possam assumir também, ao longo da Jornada, as responsabilidades, tanto para os aplausos quanto pelas censuras pelas nossas falhas. E a partir disso, teremos respostas singulares. Não posso avaliar quem estaria negando ou “enfrentando” o luto, sem conhecer a história do indivíduo. Por isso, o processo do luto é uma travessia peculiar e intransferível. Não cabe dentro de regras e normas. Assim, importa rever conceitos, pensar no que cada um acredita, sente e percebe; pois não haverá uma forma correta, haverá a possível para indivíduo. Desde que não interrompa a continuidade do ser, não o destitua da condição saudável de estar no mundo, tornando-se defensivo, enrijecido, com uma vida emocional empobrecida.

 

JD: Como a pressão social, especialmente nas redes sociais, pode impactar negativamente quem está em processo de luto?

LR: O modo como o OUTRO processa a ausência (qualquer que seja) não deveria ser convite para nossa opinião.

Enquanto psicólogos, aprendemos (ou pelo menos, deveríamos) que o nosso cuidar implica alguns manejos, faz-se necessário, por exemplo, uma presença implicada e reservada ao mesmo tempo. Ao escutar, acolhemos, reconhecemos, por vezes, interpelamos. Mas também, ofertamos tempo e espaço, esperamos, mantendo-nos disponíveis, sem intromissão excessiva para que nosso paciente possa criar e transformar.

Todavia, nas redes socias, na maioria das vezes, “esbarramos” em pessoas apressadas e que se sentem capazes de avaliar, diagnosticar e estruturar o caminho que o OUTRO deveria seguir. E nem todos suportam essa pressão. Alguns deprimem, outros ficam demasiadamente ansiosos, tantos outros se perdem nas fobias…

 

JD: A gente tem visto muita gente expor o luto em redes sociais. Quais os riscos ou a relevância da exposição da dor atualmente?

LR: Acredito que essa questão complementa a anterior. Importa pensarmos: qual a finalidade do que posto, quando posto? Uma pergunta mais analítica seria: estamos diante do profundo ou do primitivo?

E aqui a gente pode pensar numa avaliação maturacional do sujeito (claro que somente no setting terapêutico para acontecer), mas de forma geral, é necessário perguntar retoricamente: publico minha dor porque no “profundo” já consigo elaborar e nessa elaboração encontro, na escrita ou postagem de fotos,  possibilidades de continuar sendo, mesmo na dor? Ou no primitivo, me exponho sem saber a razão ou o objetivo, mas pela pressão social de postar algo, visto que todos postam. Aqui, não há gesto criativo! Talvez, a incapacidade de ficar só. E nesse caso, há risco de se perder ainda mais, “caindo” em agonias impensáveis.

 

JD: Notícias atuais afirmam que muita gente tem utilizado a inteligência artificial para manter algum vínculo com pessoas queridas que faleceram, criando diálogos e rotinas virtuais. Como você vê essa atitude?

LR: Fico a pensar, quantas saídas adoecidas são encontradas na tentativa de preencher o vazio e a ausência? Do que precisa o ser humano para viver a experiência de estar só?

“Em quase todos os nossos tratamentos psicanalíticos há ocasiões em que a capacidade de ficar só é importante para o paciente. Clinicamente isto se pode representar por uma fase de silêncio, ou uma sessão silenciosa e, esse silêncio, longe de ser evidência de resistência, representa uma CONQUISTA por parte do paciente. Talvez tenha sido esta a primeira vez que o paciente tenha tido a capacidade de realmente ficar só” (Winnicott, 1958)

Na perspectiva Winnicottiana, o luto, não é apenas um processo de perda, mas há também a possibilidade de transformação (criação).  Ele nos ajuda a compreender que o luto acontece num espaço intermediário entre o mundo interno e a realidade externa, ou seja, no que ele chama de Espaço potencial. É nesse espaço também que se dá o brincar, a experiência cultural, que o indivíduo aprende a elaborar as ausências e a construir caminhos para viver com elas (e isso será construído ao longo da vida…)

A verdade é que começamos na solidão essencial e voltaremos para o estado de solidão essencial. Em alguma medida, amadurecer implica uma certa dose de solidão. No entanto, percebemos que o social não oferta espaço para isso! Envelhecer e morrer, são tarefas difíceis e temas temíveis, mesmo ninguém estando isento desses processos.

JD: Em que momento o luto deixa de ser um processo esperado e passa a exigir atenção ou acompanhamento profissional?

LR: De alguma forma acredito já ter respondido antes. Quando afirmei que a psicanálise Winnicottiana olha para o luto como processo criativo! Se o indivíduo sente a perda, sofre, fica triste, até questiona as razões, mas encontra um modo (muito particular) de continuar a ser e estar no mundo, de maneira viva, curiosa, preservando a capacidade de sonhar e esperançar, atribuindo sentido à existência… ele segue construindo saúde! Na contramão disso, fica perigoso!

Quando possível, numa circunstância ou na outra seria bom ter companhia para atravessar esse percurso!

 

JD: Qual a importância de permitir-se viver a dor, em vez de tentar ignorá-la ou reprimi-la?

LR: Ainda na nossa sociedade alguns assuntos são tabus ou muito mórbidos, falar de morte, morrer, envelhecer…ainda é mal visto! Por isso, ser comum afastar crianças e por vezes, até adolescentes desses assuntos. Como uma problemática a ser evitada. Esquecendo que envelhecer, morrer, sentir dor faz parte da Natureza Humana. Do nosso ciclo vital. Mas como vivemos? Como se não fôssemos morrer!

Colocamos ênfase na vida, especialmente, na vida juvenil. Reforçamos a ideia de longevidade. A luta contra os traços de envelhecimento (e aqui, nada contra aos “botox” da vida, não é sobre isso!), mas sobre a busca desenfreada, às vezes até descuidada, pela “loucura” de não envelhecer, o nosso “grito” abafado por não morrer, não morrer o corpo jovem, a pele viscosa… (isso também poderá trazer inúmeras dores) e não falo contra aproveitar toda a tecnologia que há ao nosso dispor para envelhecermos e morremos com qualidade. Verdadeiramente, não é sobre isso!

Mas o convite é para não tomarmos distância do essencial! O mais temível deveria ser a morte interna! Seria perder o sentido da vida (e ninguém está isento deste risco). Por isso, importa lidarmos com as nossas dores, sentindo-as, acolhendo-as e encontrando espaço para conviver.

 

JD: Qual a orientações para familiares, amigos ou colegas de trabalho de alguém que está enlutado?

LR: Eu diria que o RESPEITO é a única resposta válida diante da dor alheia. Quem trabalha após a morte de um querido, também vive o luto! Quem viaja após a morte de alguém especial, também vive o luto! Quem decide (por qualquer razão que seja) não visitar o velório ou sepultamento do ente querido, também vive o luto! Quem se tranca e chora, também vive o luto! Quem busca por ajuda profissional ou de amigos, também vive o luto! Quem busca por colo ou prefere o isolamento, também vive o luto e a DOR! Gostaria de lembrar que na saúde há lugar tanto para a tristeza, para reclusão, para o confronto quanto para o conforto em si mesmo, para a busca de pequenas alegrias, novas conquistas. Permita-se! Viva a sua dor no seu possível. Aguarde, ouça e aprenda com a sua tristeza e com sua dor.

Só havendo lugar para dor é possível haver, em algum momento, lugar para novas alegrias.

 

JD: É possível atravessar o luto de maneira saudável mesmo mantendo compromissos e rotina? Quais as suas principais dicas?

LR: Para essa pergunta gostaria de compartilhar um poema da psicanalista Larissa Marques, que está no livro Geografias Indomesticáveis, cujo título é PERDEU, só para reforçar a ideia de que lidamos com a morte e o morrer a todo instante, em todas as fases da vida…e estamos tentando construir saúde! Que sigamos juntos! Que tenhamos espaço e voz para pensarmos sobre esse e tantos outros temas que nos alimentam e nos colocam no movimento da vida!

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Dicas de Leitura:
A morte é um dia que vale a pena viver – Ana Cláudia Quintana
Notas sobre Luto– Chimamanda Ngozi
Perdas necessárias – Judith Viorts

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  • Meu Deus! Que entrevista maravilhosa! Quero tatuar essa entrevista e mandar pra todo mundo que conheço.

    Amei. Amei. Amei! 😻

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